Universo Fesânico

literatura, cinema e inomináveis… a ótica fesanica das coisas.

6.9.09

HINO DO BRASIL - NOSSO AMOR, NOSSA PAIXÃO!

 

 

Sempre me emociono ouvindo o hino brasileiro. É um hino fantástico, emocionado. Nosso hino tem a nossa cara.

Fico irritado quando vejo algum maluco criticando nosso hino ou propondo alguma mudança estapafúrdia que só iria macular nosso canto que é perfeito. Depois eu perdôo o mentecapto, pois entendo que naquele momento ele não é brasileiro, pertence ao país dos chatos e está infiltrado em missão de aborrecimento.

Nosso hino é um hino alegre, malandro, com ginga. Um hino que fala uma coisa dizendo outra. Que manda o recado sorrindo e que ama de um jeito descontrolado, passional. Nosso hino tem um amor que só pode existir exagerado. Com choro, abraço, beijo e festa.

Dá uma olhada na abertura: Ouviram do Ipiranga as margens plácidas/ de um povo heróico o brado retumbante/ e o sol da liberdade, em raios fulgidos/ brilhou no céu da pátria nesse instante.

Percebeu a genialidade? Imagina a cena, o Rio Ipiranga calmo (margens plácidas) a natureza exuberante como num conto-de-fadas e… De repente o grito: LIBERDADE!

Veja que não é um grito sozinho, de uma pessoa só, é o grito de um povo, um brado coletivo. Quando menino, em dia de jogo da seleção brasileira, eu gostava de me sentar no quintal sozinho, meio isolado. O jogo acontecendo, as pessoas roendo unha e eu lá, lucubrando. Sentindo crescer uma tensão, uma expectativa tão densa que dava para tocar. Olhos fechado e concentração total esperando o momento certo. Às vezes vinha rápido, às vezes demorava quase o jogo inteiro, às vezes vinham vários e às vezes nem vinha. Mas quando acontecia era mágico. De uma vez só, eu ouvia o Brasil inteiro gritar Gooool! E o corpo estremecia e sentia o sol da conquista em raios brilhantes no mesmo instante daquele brado. Era um acontecimento grandioso ver meu povo inteiro gritando junto a mesma alegria.

Entendeu o brado retumbante? Se um gol faz isso tudo, imagina a conquista da liberdade, quando o Brasil passou a ser um país, uma república…

Nosso hino é lindo e apaixonado, depois da primeira parte, começa a contar vantagens igual a todo brasileiro: Minha cidade é mais bonita, meu time é melhor, minha comida é mais gostosa, nossas mulheres são mais lindas…

O hino faz a mesma coisa: Brasil de um sonho intenso, um raio vívido, de amor e de esperança a terra desce/ se em teu formoso céu, risonho e límpido, a imagem do cruzeiro resplandece/ gigante pela própria natureza / és belo, és forte, impávido (corajoso) colosso / e o teu futuro espelha essa grandeza / Terra adorada…

Olha quanto elogio. Nem juntando sertanejo e pagode a gente conseguiria repetir tanta paixão. E o brasileiro gosta de amor assim, que pesa a ponto de fazer a terra descer, que faz uma constelação de estrelas (o cruzeiro) brilhar só para nós. Nosso amor é assim um… Especial do Roberto Carlos, um último capítulo de novela, é o hino nacional.

Nosso hino combina com a gente. A segunda parte começa: Deitado eternamente em berço esplendido / Ao som do mar e à luz do céu profundo / fulguras (brilhos), ó Brasil, florão (flor de ouro) da América / iluminado ao sol do novo mundo / do que a terra mais garrida (florida) / teus risonhos, lindos campos têm mais flores / nossos bosques tem mais vida / nossa vida no teu seio mais amores…

Já ouvi um daqueles infiltrados da chatolândia dizer que era um absurdo o Brasil ficar eternamente deitado em berço esplendido, que tem muita coisa pra fazer e blábláblá, blábláblá.

Vocês sabem como são os tolos. Dão a resposta sem ouvir a pergunta.

Imagine só: você está em um paraíso como são nossas praias e campos, ao som do mar, com um céu azul que de tão maravilhoso é profundo, com a terra florida, uma vida cheia de amores nas fulguras do florão da América. Imagine que você acabou de conquistar a sua liberdade, o que foi muito cansativo.

Você estaria pensando em quê? Em trabalho? Só sendo muito chato. Vai atrapalhar as férias de outro, sai pra lá chatonildo.

O ser irritante pode até insistir: Mas ele está deitado eternamente..

É modo de falar. Tá querendo dizer que o Brasil será sempre de uma natureza exuberante, que somos privilegiados por nossa localização, que queremos que estas maravilhas nunca se acabem.

Do mais, basta continuar o hino pra saber que, sempre estaremos prontos para o trabalho e até para a guerra a fim de defender nosso país. Olha só: Brasil, de amor eterno seja símbolo / O lábaro (bandeira) que ostentas estrelado / E diga o verde-louro dessa flâmula (bandeira) / Paz no futuro e glória no passado / Mas, se ergues da justiça a clava forte / Verás que um filho teu não foge a luta / nem teme, quem te adora, a própria morte…

Tá vendo que lindo. Igualzinho a todo brasileiro. Lembro de Euclides da Cunha, que se a morte não tivesse levado cedo, acredito que iria corrigir e melhorar sua visão sobre o brasileiro. Mas, em um desses momentos de fulguras, escreveu: O sertanejo é, antes de tudo, um forte (…) Basta o aparecimento de qualquer incidente transfigura-se. Reponta. Um titã acobreado e potente. De força e agilidade extraordinárias.”

Omiti um pedacinho do trecho, pois é uma das partes que Euclides iria corrigir se vivesse mais. Voltando ao hino, é essa a essência brasileira. Se está tudo bem, não vamos complicar. Descansa e aproveita.

Se surge algum imprevisto, o brasileiro que está descansando transfigura-se. Levanta com a clava (arma) em punho e torna-se um titã acobreado (cor de cobre, cor de brasileiro).

Brasileiro não foge à luta e ama seu país a ponto de enfrentar a morte por ele. Mas não somos de guerra, só brigamos se precisar, se der pra conversar, a gente resolve na boa.

Se não tiver essa essência de paz e de amor pelo país não está sendo brasileiro.

Se não buscar a paz no futuro e não comemorar as glórias do passado, não está sendo brasileiro.

Se não amar e respeitar a natureza, a terra garrida, os risonhos e lindos campos, o som do mar e o céu profundo, não está sendo brasileiro.

Se não souber levantar e lutar no momento preciso, para defender o que temos de mais precioso, nosso povo, nossa terra, não está sendo brasileiro.

Se ficar inventando moda, e ficar botando defeito no nosso hino, ao invés de cantar e de tão feliz até bater palmas no final (mesmo sabendo que não pode) não está sendo brasileiro, está sendo chato.

Chato e mau educado, do tipo que põe a mãe no meio da discussão.

Por isso cantemos: “Terra adorada / Entre outras mil, / És tu Brasil / Ó pátria amada! / Dos filhos deste solo és mãe gentil / Pátria Amada, Brasil! 

Helton Fesan

 

História e Informações - A letra do hino nacional do Brasil foi escrita por Joaquim Osório Duque Estrada (1870 – 1927) e a música é de Francisco Manuel da Silva (1795-1865). Tornou-se oficial no dia 1 de setembro de 1971, através da lei nº 5700. Existe uma série de regras que devem ser seguidas no momento da execução do hino, mas só citarei uma: nunca deixe de cantá-lo!

PS: Bater palmas no final do hino é errado mas é gostoso, devia se tornar opcional, do tipo - Quem gostou bate palmas.

criado por helton.julio    16:39 — Arquivado em: Gestão de Pessoas, crônicas, direito, literatura

26.5.09

COTAS DE AMOR

 

Já pensou em cotas de amor?
Cotas de afeto?
Se fosse possível determinar que para cada porção de amor que alguém desse para o filho, uma parte deveria ser destinada para órfãos.
Que parte do calor de seu abraço servisse obrigatoriamente para aquecer um desabrigado.
Se fossemos obrigados a destinar uma porcentagem de nosso sorriso à quem só tem tristeza. Parte de nossos beijos de boa noite dever-se-ia destinar à recém nascidos abandonados em caixas de papelão.
Seria esta política tão horrenda?
Teríamos teóricos indignados na defesa do “livre direito de afeto”?
Será que existiriam pessoas reclamando que por terem lhe obrigado a sorrir ao indigente, faltou-lhe humor no almoço de domingo com a família?
Alegaríamos que nossa irritação no trabalho se deu pelo fato de parte de nossa alegria ter sido confiscada pelo governo e redistribuída nos hospitais públicos para acalantar pacientes terminais?
Será que teríamos um colapso social, uma crise depressiva coletiva por sermos obrigados a destinar parte de nosso amor aos desamados?
Diríamos que não. Que amor não se obriga. Que Deus nos concedeu o livre arbítrio para sermos livres, e que seu mandamento de “amar o próximo” deve ser espontâneo e não coercitivo.
Que obrigar alguém a amar só geraria ódio. Que o sorriso forçado traria, inevitavelmente, o choro.
Faríamos teses e discursos inflamados contra o amor compulsório e defenderíamos a liberdade do afeto e provavelmente venceríamos, pois, não há como obrigar o amor.
Continuaríamos livres para amar como, quando e quem quiséssemos.
O mundo continuaria mundo, e os desalmados continuariam com o divino direito de não amar ninguém.
Quem tem amor o guardaria todo só para si e o economizaria dentro do peito sem gastar nem uma gota. Feliz pelo seu amor ser só seu. Pelo seu afeto ser algo restrito à sua liberdade.
Quanto aos tristes e desafortunados, os infelizes de má sorte, os que não tem ninguém, se quiserem amor, que trabalhem por ele.
    
 
   Helton Fesan

 

 

criado por helton.julio    20:00 — Arquivado em: consciencia negra, crônicas, literatura, quilombhoje

20.5.09

Avesso

 

Um exército de infaustos, aguarda passivo e silencioso
a chegada do messias.
Se alvoroçam a cada galho que se quebra.
Animam-se cheios de esperança ao ouvir o barulho que chacoalha o mato.
Mas nada existe lá!
É só fruta que apodrece no outono. Aos poucos morre a espera.
Áspera falta de esperança no olhar.
Onde está o salvador? Os seres superiores que nos salvam de nos mesmos?
Daqui vejo alguns. Conversam felizes. Sinto o frescor de suas palavras, alegria que mora no banal.
Não pedem, exigem!
Não se desculpam, pois não foram criados para errar;
Não pensam, já são superiores.
Não agradecem, jamais precisariam de alguém.
Não conquistam, pois, tudo já lhes pertence.
Não criam, tudo lhes foi feito.
Não reivindicam, festejam.
Não protestam, comentam.
Agridem, por serem passivos.
Humilham, por quererem respeito.   
Discursam o superficial, por serem especialistas,
São demais, superiores, humanos.
Enquanto isso, os imperfeitos produzem.
Martelam dia à dia a chapa da civilização.
Buscam a compensação de sua genética falha
executando obras de precisão ovalar.
Sentenciam-se as mais duras penitências com pouca voz.
Não são iguais aqueles de quem se espera salvação.
Pobres,
Quase egoístas,
Quase avarentos,
Quase hipócritas,
Quase estúpidos,
Quase fracos,
Quase medíocres,
Quase humanos.
Só os salvadores são humanos,
Pobres são santos!
Mas onde moram os santos?
Em pequenas casas de madeira em remendo,
com janelas improvisadas e cortinas coloridas,
ruas de pedra, terra e poesia.
Misturadas ao esgoto que faz trilha imitando rio,
que é brinquedo de crianças descalças
apostando corrida de palito.
Que é pânico de pais aflitos.
Os santos moram no espaço que sobrou.
No pouco que restou.
Moram enquanto der,
o quanto puder.
Se algo sair errado, pobres santos,
do nada são despejados.
Moram lá os santos, em qualquer lugar.
Onde ninguém mais quer morar.

 

 

 

Helton Fesan

Publicado em Cadernos Negros 27 - Quilombhoje

criado por helton.julio    11:27 — Arquivado em: Prosa e Poesia, literatura, quilombhoje

CORRA MULHER

 

(homenagem à Casa Cinco)
 
Corra mulher, corra pois não há tempo !
De nada te esqueça
Nem das tranças de tua cabeça
Nem dos botões que te ajudam
Nem da linha que te segura,
Pano que tudo cobre
Agulha que te fura
 
Corra mulher, pois sabes de tua urgência
Dos pequenos que te consomem
Amantes que de ti somem
Levando-te a penitência
Sei de tua paciência,
Mas não agora ,
Mova-se ligeira e sensual
Luta ! e luta com revolta
Para ti não há jamais
Debaixo de teus pés
Mora pó e satanás
 
Corra mulher, corra
Pois clama o mundo por tua salvação
Da força de teu olhar
Do apelo de teu falar
Do sensível coração
 
Corra e alcança o que é vosso
Alicerce de todo um povo,
Gotejar de intenso gozo
Deleita-te sem ter remorso

 

Helton Fesan - publicado em Cadernos Negros 27 - Quilobhoje

criado por helton.julio    10:49 — Arquivado em: Prosa e Poesia, literatura, quilombhoje

23.4.09

Edições Toró e a Livre Iniciativa

 

 
Este post é um pedido de desculpas para minha consciência. Divulgo aqui um trabalho que julgo essencial no país: o da livre iniciativa.
Não da livre iniciativa puramente capitalista, mas a do direito superior e universal de cada pessoa fazer por si mesma.
Entendam que iniciar-se livremente é algo necessário para a formação adequada do povo. Poder começar algo, empreender–se por caminhos diversos, transformar, dar vida as coisas.
Edições Toró é o exemplo de livre iniciativa do povo. Pessoas que entenderam que a literatura é importante e resolveram tocar um projeto editorial adiante. Novos poetas, novas atitudes, novas ciências.
Não é programa do governo, não é assistencialismo, não é paternalismo… São pessoas que acreditam em uma idéia e se propuseram a executa-la com qualidade.
 
 
 
O livro Punga é apenas um exemplo do trabalho espetacular desenvolvido.
 
Façamos o seguinte, não irei detalhar o projeto nem citar os nomes das pessoas (que são amigas e extremamente competentes) deixarei para que vocês tomem a livre iniciativa de viajar no espaço da Edições Toró
 
 
Deixo apenas uma amostra
 
Despenca toró, despenca.
Lágrima safada, suor cabreiro,
saliva calorenta.

 

criado por helton.julio    13:34 — Arquivado em: Prosa e Poesia, consciencia negra, literatura, quilombhoje

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