Universo Fesânico

literatura, cinema e inomináveis… a ótica fesanica das coisas.

29.3.09

SIMULAÇÃO E DISSIMULAÇÃO CONTRA AS COTAS

 

Este artigo é uma resposta direta ao artigo publicado no Estado de São Paulo, pelo sociólogo Demétrio Magnoli.
Não é segredo que o Estado de São Paulo, juntamente com a revista Veja, faz intensa campanha contra as políticas de cotas e para isso lança mão de intelectuais que sempre trazem argumentos contundentes na retórica, mas, ao que me parece, muito frágeis no conteúdo.
Ter opinião a favor ou contra qualquer coisa é legítimo e democrático, porém, simular e dissimular a verdade para fazer valer suas idéias é prejudicar o debate e jogar contra o povo e o avanço.
O artigo do sociólogo Demétrio Magnoli começa com um título infeliz: “Coisa de Preto”.
A chamada racista é explicada no meio do texto como sendo frase corrente entre parlamentares que, segundo Magnoli, “enxergam as leis raciais como esmolas concedidas aos pedintes”.
A coluna é ladina, pois, primeiro usa uma ofensa racial da mais chula e abominável, e, em seguida, sorri amarelo e justifica-se dizendo que não sou eu quem falou, mas sim os outros, e fica assim, a injúria é repetida e assimilada pelo leitor sem que se possa determinar o ofensor, já que o colunista é apenas um repetidor que não sabe determinar a fonte.
Esta amostra foi apenas para denunciar a esperteza do texto (ou do autor?) que mantém esta linha de dissimular e simular até o final.
Simular – fazer parecer real uma coisa que não é.
Demétrio simula quando tenta fazer crer que a maioria da população é contra políticas públicas de cotas. A afirmativa apresentada por ele é que a maioria das pessoas “rejeita a introdução de raça na lei”
Ora, “introduzir raça na lei” é algo mais complexo e que vai além de políticas públicas de cotas. Perguntar a qualquer pessoa se ela é a favor de introduzir raça na lei é remetê-la a lugares tenebrosos como o nazismo ou à escravidão. Óbvio que a população brasileira é contra estas práticas.
Perguntemos ao povo se este é a favor de leis que favoreçam a população carente, discriminada, que sofre racismo, que tem oportunidades cotidianas desiguais, na hora de concorrer a vagas públicas com quem pode pagar cursinho, que estudou em escolas particulares, quem historicamente é beneficiado por uma sociedade que encontra no europeu o ÚNICO padrão de beleza possível…
O resultado da citada pesquisa seria outro.
Dissimular – Ocultar, encobrir.
Em outro trecho de sua coluna Demétrio cita o projeto do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) que determina a implantação de tempo integral nas escolas públicas de ensino fundamental. Usa a seguinte frase para comparar o valor do projeto com o Bolsa-Família: “custaria cerca de R$ 20 bilhões anuais, pouco menos que o dobro do Bolsa-Família.
Notemos que “pouco menos que o dobro” é um sofismo para dizer “quase o dobro”, ou seja, um projeto caro e de difícil aprovação imediata, pois, é sabido que alterar os gastos do governo para benefício direto do povo é algo historicamente difícil e que demanda muita luta. Ninguém, de nenhum movimento social, é contra o período integral no ensino fundamental, mas, entende-se que tais políticas não são substitutivas. Grosso modo, uma coisa não elimina a outra, mesmo por que, são políticas distintas para problemas interligados, mas distintos.
A implementação de políticas de cotas atingirá imediatamente um público que já saiu do ensino fundamental e médio, ou seja, já eliminou um período de 12 anos de estudo e que busca o complemento deste estudo no nível superior.
A melhoria e universalização real do ensino básico e fundamental atingem gerações de universitários futuros e, poderão e deverão substituir as políticas de cotas quando estiverem efetivamente dando resultados, ou seja, daqui a pelo menos vinte anos se forem votadas, aprovadas e implementadas agora.
A divisão racial existe e o Brasil não tem 20 anos para pensar no assunto, precisa tomar medidas já.
O texto do Estado de São Paulo ainda traz, a afirmação de que “Não existe no Brasil “movimento negro” em nenhum sentido legítimo da palavra.” Diz que o que existe são ONGs racialistas que recebem milhões de dólares da Fundação Ford.
Neste ponto o senhor Demétrio simula e dissimula.
Que ONGs?
Dê nome aos bois. Diga o nome das entidades para que estas possam se defender de suas acusações. Se não o fizer, só posso entender como mais uma manobra do texto.
Quanto a não existência de movimento negro, talvez não exista para o sociólogo, que considera estes movimentos como “racialistas”.
Eu, que cresci no convívio destes movimentos os considero legítimos e existentes. MNU – Movimento Negro Unificado; Frente Negra Brasileira (já extinta); Negra Sim; Quilombhoje Literatura (mais de trinta anos de publicação) são apenas alguns que representam uma gota no oceano deste movimento que não recebe nenhum financiamento e mesmo assim continua firme na luta por um Brasil sem racismo e sem desigualdades. Almejam um futuro no qual estas entidades até poderão deixar de existir pela absoluta falta de utilidade.
Mas por enquanto, existem por serem necessárias, por ainda haver na discussão racial brasileira uma boa dose de simulação e dissimulação. 
 
 Helton Fesan é advogado escritor e membro da CAAD (Comissão de Advogados pela Afro-Descendência da 38ª subsecção da OAB – Santo André)
criado por helton.julio    23:13 — Arquivado em: consciencia negra, crônicas, direito

17.3.09

Nova Coletanea

Nova Coletânea homenageará Carlos Vilarinho e Valdeck Almeida de Jesus no lançamento de “Contos e crônicas para viagem”

A Nova Coletânea, Projeto de Inclusão Literária, homenageará os escritores Carlos Vilarinho e Valdeck Almeida de Jesus em sua nova antologia “Contos e crônicas para viagem”. Parceiros do projeto em sua nova edição, Carlos Vilarinho e Valdeck Almeida de Jesus são conhecidos por trabalharem uma literatura engajada e focalizarem as questões sociais em seus trabalhos. Pelos grandes serviços prestados à literatura nacional ambos fazem hoje parte da Câmara Bahiana do Livro e já oportunizam a chegada dos novos autores a uma das maiores feiras literárias do país, a Bienal do Livro da Bahia. Valdeck Almeida de Jesus criou um concurso literário que leva à inclusão vários autores antes à margem do mercado editorial e realiza, deste modo, o seu sonho da primeira publicação de muitos poetas. Carlos, educador de jovens e adultos, disponibiliza em sua página espaço para a exposição de textos publicados digitalmente a escritores de todas as regiões do país. Agora, na diretoria da Câmara Bahiana do Livro, defende uma política de inclusão, de geração de mercado e ampliação de oportunidades ao setor livreiro. Ambos, conhecidos pela simplicidade e posicionamento crítico diante da realidade contarão com apoio irrestrito da Nova Coletânea que prevê para o povo baiano e brasileiro a chegada de um novo tempo. “O Carlos e Valdeck foram imprescindíveis neste novo passo da Nova Coletânea que é o de dar visibilidade ao novo autor. Queremos mostrar que em nosso trabalho há uma continuidade, que aquele que se associa a nós é assumido para além da edição do livro impresso. Eles são um modelo para nós, já tem estrada nesta via de inclusão, a qual defendemos em todas as nossas ações. Os seus nomes já fazem parte da nossa história e nossa gratidão se revela neste ato simbólico, uma dedicatória que abre o livro para o Projeto 2009″ (Bruno R. Ramos). Então, fica aqui o convite ao povo baiano e todos os que estiverem presentes à 9ª Bienal do Livro da Bahia. Às 17:00 do dia 19 de abril tem lançamento e homenagem no estande da Câmara Bahiana do Livro. Não perca!

 

criado por helton.julio    14:18 — Arquivado em: Sem categoria, literatura

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