Universo Fesânico

literatura, cinema e inomináveis… a ótica fesanica das coisas.

23.2.09

ESSA ESCOLA ME FEZ CHORAR

http://www.grestommaior.com.br/ 

Chorei.

Eu, homem feito, descendente do povo da serra da barriga, que lá na chapada onde ainda mora minha vó - a Mãe Cê – eram apelidados de negros da costa.

Eu que cresci ouvindo Martinho, Beth, Almir… e que vi meu pai chegar orgulhoso com a boina da bateria da Vai-Vai.

Eu que recebi sete festas de Cosme e Damião, me fartando de bolo e pipoca na companhia dos Erês.

Eu que sufoquei a vontade boemia, o gosto do batuque para por no dedo o mesmo anel que tinha o pai de João Nogueira.

Eu que fui resgatado na minha negritude pelo improvável, mas, sólido caminho das letras que se rebelaram com a ditadura Européia e fugiram para o quilombo, e lá resistem até hoje. É o QUILOMBo de HOJE.

Eu que combinei com meu pai, num pacto de olhar que o samba “tom maior” seria nosso hino… Chorei.

Chorei quando a Tom Maior entrou na avenida. Um côro de negros me arremessaram para Angola e me vi lá, numa vila destruída, olhando meus irmãos que fugiam da guerra e da dor.

Os pés descalços, membros mutilados e olhos tristes. Era 1975 e eu acabara de nascer.

Tantos motivos para me envergonhar, tantos açoites dados pela minha pátria amada, mãe gentil e a Tom Maior mostrou-me um outro lado, algo para se orgulhar.

Fomos nós brasileiros, os últimos a aceitar a liberdade dos negros, que primeiro aceitamos a liberdade de Angola.

Foi esta história, negligenciada nas escolas, gritada incessantemente pelo poeta da vila que pretendeu contar Marco Aurélio Ruffinn, carnavalesco da Tom Maior.

Foi um sonho de sessenta e um minutos que sussurrou no ouvido da diáspora: “tenha coragem, sou sua identidade.”

Este chamado acordou primeiro um dragão de seis cabeças, seis oris. Maradona, Claudinei, Amós, Ferracini, Tinga e Ricardo, fizeram um Samba Enredo como há muito tempo não se via. Desaceleraram a cadência e o céu do samba ganhou mais uma estrela.

Preciso mostrar meu espanto, meu deslumbramento. Deixa e dizer, preciso desabafar.

Preciso destacar aquilo que cegou meus olhos de tanta luz.

Uma comissão de frente, que calou o “Grande Otelo”, e os próprios componentes disseram ter sido o carnaval inesquecível.

Alegorias imponentes de encantados tempos. Enquices  fizeram Leci Brandão calar por temor e respeito. Apenas advertiu aos colegas: “isso é muito sério.”

Houve samba e sobrou beleza. Mas beleza não sobra, soma.

Madrinha e Rainha apresentavam uma bateria de Ogans. Mestres salas e Portas Bandeiras fizeram o improvável. Fizeram também o místico, o segredo descalço que novamente calaram à Leci, à mim e ao “Grande Otelo”. Coisa muito séria.

Cantaram Martinho. Martinho que é sambista, Martinho que é embaixador cultural, Martinho que é da vila, Martinho escritor.

Escritor como foi Agostinho Neto. Escritor como me quero ser.

Eu, nascido em 1975, esperei trinta e quatro anos para ver Angola dizer: “somos irmãos, temos o mesmo passado e construiremos juntos um novo destino”.

Eu, diáspora espalhada na America Latina, chorei com a emoção de quem reencontra a família.

Obrigado Tom Maior.

 Mestre Sala Porta Bandeira da Tom Maior

Helton Fesan

criado por helton.julio    14:35 — Arquivado em: consciencia negra, crônicas, quilombhoje — Tags:

6 Comentários »

  1. Comentário por vania — 25.2.09 @ 14:27

    Muitas coisas a serem ditas, mas nada melhor do que sentir. Somos africanos, somos brasileiros, somos negros. Essa identidade ninguém nos tira. Podemos chorar de tristeza de indignação, mas no nosso peito o riso brota. Não é fácil ser negro, muito menos admitir que somos negros. O orgulho dessa raça que tudo sabe e tudo pode é ter consciencia de que isso é real e não um sonho.
    Beijos,
    Vânia.

  2. Comentário por Joyce Cristina — 12.3.09 @ 20:58

    A Tom Maior estava belíssima, a música foi de lavar a alma e o seu texto de encher de alegria o coração… Eu te amo

  3. Comentário por Beth Balboni — 22.9.09 @ 1:49

    Helton, sou diretora da Tom Maior e por ter estado em Angola em 2007 para realizar shows com a Tom Maior, sugeri Angola como enredo em 2009. Não conseguimos qualquer ajuda financeira para a realização do nosso desfile, só nós sabemos as dificuldades por que passamos para conseguir colocar o melhor que pudessemos na avenida e um honroso 11º lugar na classificação. Digo honroso pois colocar um carnaval na avenida como colocamos, sem qualquer patrocínio, sem quadra, entre outras coisas, só nos pode deixar honrados por ter podido representar o que nos propuzemos.
    Estava eu fazendo uma pesquisa de imagens da Tom quando me deparei com este texto no seu blog, que me fez chorar e que só me deu uma certeza: VALEU A PENA!!!
    Muito obrigada por traduzir com tanta propriedade o seu sentimento por nosso desfile e pela profundidade de toda sua compreensão e emoção.
    Um grande abraço!

  4. Comentário por Johnny Teodoro — 22.9.09 @ 9:44

    Helton, emocionante o seu texto…

  5. Comentário por Helton Fesan — 22.9.09 @ 13:12

    Obrigado Beth e obrigado johnny. Pessoas como vocês nos fazem amar o samba o carnaval e nossa negritude. Visitem sempre os blogs e acompanhem o trabalho. Espero que em 2010 repitam o trabalho grandioso de 2009, trazendo cultura, alegria e vocabulário para a nossa gente.

    Helton Fesan

  6. Comentário por Andrea Pereira — 23.9.09 @ 23:53

    Ao ler o seu texto, sinto a mesma emoção do dia do desfile.
    Somos os verdadeiros campeões.

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