Universo Fesânico

literatura, cinema e inomináveis… a ótica fesanica das coisas.

27.2.09

QUINZE ANOS FALANDO DE COTAS!

Olá meus caros. este texto sobre cotas foi escrito há mais ou menos 15 anos. Revirando as coisas velhas encontrei-o e percebi que a discussão continua igualzinha e que o texto continua atual.

Como isso é possível?

Na época eu ainda era estudante e produzi este texto no calor da emoção e da necessidade. Hoje, já formado e pós-graduado, fico pasmo em perceber que bem pouca coisa mudou. Há o que comemorar em termos de ações afirmativas como o Pró-Uni, a UniPalmares, o Escola da Família e até o aumento de Faculdades Particulares ajudou a aumentar a faixa de acesso ao nível superior.

Mas é certo que as Universidades Públicas continuam sendo guetos de uma elite branca.

Assim, resolvi republicar aqui o texto para trazer para hoje, a reflexão de uma década e meia atrás (ou seria à frente?).

Vocês que dirão. Mais tarde publicarei um artigo comentando o artigo do Sr. Demétrios. por enquanto…

COTAS PRA QUE TE QUERO

Quero as cotas! desejo as cotas! Mais que isso, preciso das cotas!

Nunca vi tanta gente indignada ao mesmo tempo, com o mesmo assunto, e o que me assusta são as justificativas:

“Meu pai pagou um ano de cursinho , pra que eu pudesse entrar na faculdade e agora eu estou prejudicada pelo sistema de cotas.”

Sorte sua seu pai ter dinheiro, a maioria dos negros não tem essa condição de se dedicar EXCLUSIVAMENTE ao vestibular.

“AAAH, MAIS NÃO É JUSTO!”

Ora bolas, quatrocentos anos de servidão e mais cem de exclusão também não foram. Se a sociedade preferir pode nos indenizar em dinheiro.

Fazemos esse cálculo em 500 anos de cárcere, maus tratos, humilhações, condenações indevidas, tortura, assassinatos, mais multa, mais correção, juros (porque o sistema é capitalista e nós também) nossos honorários (já temos advogados) e… Opa! dá pra comprar o Brasil!

Queridos, deixemos de ser hipócritas. Ninguém tá pedindo favor nem esmola alguma, o país nos deve e precisa pagar, pois, se não for assim jamais seremos uma verdadeira nação, não poderemos nos chamar de Povo Brasileiro.

Povo é uma questão de ser irmão, de se reconhecer em qualquer lugar do planeta como um igual. Como podemos ser iguais se uns levam uma vantagem de quinhentos anos em cima dos outros.

Tudo isso poderia ser evitado lá atrás com a Lei Áurea. Bastava alguns alqueires de terra, um crédito agrícola para plantar, um certo incentivo educacional e pronto. eis uma sociedade um pouco mais justa. Estende-se o mesmo aos índios.

Mas não, o “zóio grande” deixou tudo como tava e agora ta aí, este puta abacaxi pra descascar.

Bom, não dá pra chorar o leite derramado. Ta devendo? Paga e pronto!

 E não precisa fazer bico, por que não é nada pessoal, a gente vai ficar até mais amigo quando a poeira baixar, tem um pouquinho de rancor dos dois lados, mas isso a gente supera também!

Ah, já ia esquecer! Tem um pessoal que anda dizendo o seguinte: “se um negro entrar na faculdade pelo sistema de cotas, ele jamais vai ser respeitado como o profissional que entrou na faculdade com o vestibular comum”

Ta bom!

Vou tentar explicar sem ofender:

1º quem precisa pensar nisso é o negro que vai ser beneficiado pelas cotas, e não quem tá de fora se mordendo de raiva por ter que largar o osso.

2º o que define o profissional não é a nota com que ele ENTRA na faculdade e sim a nota com que ele SAI da faculdade, pois se não fosse assim se pegaria o diploma logo após o vestibular, sem que fosse necessário passar anos estudando, ou seja, o vestibular só define quem entra e quem não entra, e no momento nós não estamos entrando.

3º se algum negro se sentir incomodado em receber uma indenização que é sua por direito, basta abrir mão. Não é obrigado receber não. É direito dele pagar faculdade particular ou prestar vestibular pelo sistema vigente.

 

Agora, minha parte eu quero, e como dizia minha avó “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Queridos, não me entendam mal. Vai doer um pouco agora, mas, depois tudo ficara melhor, e, falemos a verdade… Saiu barato né!

 

Helton Fesan


criado por helton.julio    16:40 — Arquivado em: Sem categoria

23.2.09

ESSA ESCOLA ME FEZ CHORAR

http://www.grestommaior.com.br/ 

Chorei.

Eu, homem feito, descendente do povo da serra da barriga, que lá na chapada onde ainda mora minha vó - a Mãe Cê – eram apelidados de negros da costa.

Eu que cresci ouvindo Martinho, Beth, Almir… e que vi meu pai chegar orgulhoso com a boina da bateria da Vai-Vai.

Eu que recebi sete festas de Cosme e Damião, me fartando de bolo e pipoca na companhia dos Erês.

Eu que sufoquei a vontade boemia, o gosto do batuque para por no dedo o mesmo anel que tinha o pai de João Nogueira.

Eu que fui resgatado na minha negritude pelo improvável, mas, sólido caminho das letras que se rebelaram com a ditadura Européia e fugiram para o quilombo, e lá resistem até hoje. É o QUILOMBo de HOJE.

Eu que combinei com meu pai, num pacto de olhar que o samba “tom maior” seria nosso hino… Chorei.

Chorei quando a Tom Maior entrou na avenida. Um côro de negros me arremessaram para Angola e me vi lá, numa vila destruída, olhando meus irmãos que fugiam da guerra e da dor.

Os pés descalços, membros mutilados e olhos tristes. Era 1975 e eu acabara de nascer.

Tantos motivos para me envergonhar, tantos açoites dados pela minha pátria amada, mãe gentil e a Tom Maior mostrou-me um outro lado, algo para se orgulhar.

Fomos nós brasileiros, os últimos a aceitar a liberdade dos negros, que primeiro aceitamos a liberdade de Angola.

Foi esta história, negligenciada nas escolas, gritada incessantemente pelo poeta da vila que pretendeu contar Marco Aurélio Ruffinn, carnavalesco da Tom Maior.

Foi um sonho de sessenta e um minutos que sussurrou no ouvido da diáspora: “tenha coragem, sou sua identidade.”

Este chamado acordou primeiro um dragão de seis cabeças, seis oris. Maradona, Claudinei, Amós, Ferracini, Tinga e Ricardo, fizeram um Samba Enredo como há muito tempo não se via. Desaceleraram a cadência e o céu do samba ganhou mais uma estrela.

Preciso mostrar meu espanto, meu deslumbramento. Deixa e dizer, preciso desabafar.

Preciso destacar aquilo que cegou meus olhos de tanta luz.

Uma comissão de frente, que calou o “Grande Otelo”, e os próprios componentes disseram ter sido o carnaval inesquecível.

Alegorias imponentes de encantados tempos. Enquices  fizeram Leci Brandão calar por temor e respeito. Apenas advertiu aos colegas: “isso é muito sério.”

Houve samba e sobrou beleza. Mas beleza não sobra, soma.

Madrinha e Rainha apresentavam uma bateria de Ogans. Mestres salas e Portas Bandeiras fizeram o improvável. Fizeram também o místico, o segredo descalço que novamente calaram à Leci, à mim e ao “Grande Otelo”. Coisa muito séria.

Cantaram Martinho. Martinho que é sambista, Martinho que é embaixador cultural, Martinho que é da vila, Martinho escritor.

Escritor como foi Agostinho Neto. Escritor como me quero ser.

Eu, nascido em 1975, esperei trinta e quatro anos para ver Angola dizer: “somos irmãos, temos o mesmo passado e construiremos juntos um novo destino”.

Eu, diáspora espalhada na America Latina, chorei com a emoção de quem reencontra a família.

Obrigado Tom Maior.

 Mestre Sala Porta Bandeira da Tom Maior

Helton Fesan

criado por helton.julio    14:35 — Arquivado em: consciencia negra, crônicas, quilombhoje — Tags:

9.2.09

Consumindo Consuelo

Geralmente é assim
Ela chega dá as cartas e segue
consumando o que consegue
Eu apenas sigo,
De que adianta queixar-me
Esbravejar,
Apenas faço constar
Consuelo…
Muito mais que Rainha do lar
Hoje, é produtiva, consumidora exigente
Circulante absoluta do Paraíso Shopping Center
Acha que é exagero?
Ah! Vocês não conhecem Consuelo

Na loja, o primeiro degrau
Puxa pano, vê o ziper
O gerente: seu rival
Consuelo bate o pé
Exige preço e produto
Idênticos ao do comercial
E eu ali sentado,quase passando mal
Finda a guerra, Consuelo é um espanto
Consegue a roupa o brinde e o desconto!
Penso: Agora, finalmente pra casa e pro sossego…
Ah! Vocês não conhecem Consuelo

O dia esta longe de terminar
Pra ela uma aventura
Pra mim, tortura.
Carrinho, caixa, sacolão
É hora do Kit Alimentação
Pimentão, cebola, tempero
Do nada, vem um carrinho
E bate no meu joelho
A roda trava, a fila cresce
E meu filho chora e berra por brinquedo
Me falta o ar, fico nervoso
Onde se meteu Consuelo?
Adivinha!
Reclamando
Porque o tomate não tá vermelho.

Bom … duas semanas depois
Eu em casa na sala
Consuelo no banheiro
Longe do shopping, do mercado
Única coisa que consumo
É um Corinthians contra o Cruzeiro
Vou pra cozinha atrás da “boa”, da “redonda”
Qualquer uma desde que tenha gelo
Na volta deparo com as notícias
Fresquinhas do correio
Adivinha!
A fatura do cartão
Olho, mas tenho medo

Depois de abrir, eu fico roxo, verde
E vai me subindo um azedo
E não dá nem pra pagar depois
Senão é juros, mora e vai adentro
Uma raiva
E quem entra na sala?
Consuelo!
Só de toalha, chinelo, joelho e tornozelo
Eu estava quase estourando
Mas sabe…
Vocês não conhecem Consuelo
Se conhecessem
Diriam bem alto e sem medo
CONSUMO E CONSUMO MESMO!

Helton Fesan

criado por helton.julio    12:26 — Arquivado em: Gestão de Pessoas, Prosa e Poesia, literatura

3.2.09

NUVENS

I

Era uma nuvem 
                  Que tentava 
     me
                        Gritar sua forma

 

                                            II

                                           Um dinossauro
                                                                                               Bebendo água?
                                

Um dedo apontando 
                                                       Deus?
Olha! 
                   Tá 

                                      d e      s

                                                                     man  c   h    and  . . .

                                                                                                                      III

                                                                                                             Algodões
                                                                Vive estratos 
                                            Chora cúmulos                                                           Morre cirros

                        Vive cúmulos
                              Chora estratos
          Morre cirros

                                                 Vive Algodões
                                                               Morre estratos 

                                                                                                        

Morre algodões

Helton Fesan

criado por helton.julio    17:32 — Arquivado em: Prosa e Poesia, literatura

2.2.09

SEJAMOS PORNOGRÁFICOS

Se você é menor, saia agora desta crítica, pois perderá seu tempo se está procurando sacanagem!
O convite do título não se aplica a menores, trata-se de algo sério (pra não dizer chato), tipo conversa de adulto. Para dar mais embasamento e um certo ar de erudição para o texto, permito-me a citação de Carlos Drummond de Andrade:

“Em Face dos Últimos acontecimentos

Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
Que o nosso avô português ?
Oh ! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.”

Drummond sabia das coisas, talvez já tivesse previsto o sucesso da Indústria do Cinema Pornô Mundial. Aliás, mundial e universal, já que estes filmes carregam o mérito de se comunicar com todos os seguimentos sociais. No pornô não existem excluídos. Sem a necessidade de cotas encontramos negros, loiros, anões, obesos, asiáticos, gays, lésbicas, mocinhos, canalhas, gênios e dementes. Todos os tipos de homens e mulheres são representados.
Até as feministas e os conservadores, que abominam a indústria pornográfica, têm seus auto-egos contemplados em singelos filmes de entretenimento adulto.
Exemplo disto é Linda Lovelance, hoje “de cujus”, outrora festejada por sua elasticidade oral no comprometedor “GARGANTA PROFUNDA”.
A mocinha, acordou em um belo dia e pensou que pornografia não era legal, revoltada, decidiu meter a boca ( `~´ ) e tornou-se feminista. Escreveu um livro, e pregou ferozmente contra a maléfica indústria pornô.
Mas o pornô não é feito só de ódio, ele também realiza sonhos, como o do cabeleireiro frustrado Gerald Damiano, que sonhava em fazer cinema e, acreditando em seu sonho, filmou Garganta Profunda em seis dias, com US$ 25 mil. O mundo do cinema ganhou seu maior sucesso de bilheteria quando o filme
faturou US$ 600 milhões. Mas não pensem que Gerald tornou-se milionário, como no ditado, a máfia dá a máfia tira.
Histórias curiosas deste mercado curioso estão sendo cada vez mais discutidas no mundo do cinema convencional. Já foi rodado o documentário "Inside Deep Throat", algo como “Por dentro da Garganta Profunda”, que causou extremo interesse no Festival de Berlim. Aliás, no ano anterior no mesmo festival, o filme vencedor, “Contra Parede”, trazia como atriz principal a Jovem Sibel Kekilli, que antes deste, fez filmes, digamos, menos convencionais.
De fato a Indústria Pornográfica já exerce forte influência no cinema, que vem bebendo desta fonte já há algum tempo. É comum vermos filmes sobre o mercado pornográfico como o americano “Boogie Nights - Prazer sem limites” de Paul Thomas Anderson e o inglês “A vida desta Garota” do novo diretor Ash, Meus preferidos são Kan ParK de Larry Clark e Edward Lachman e 9 canções de Michael Winterbottom.

Já outros, não tratam diretamente sobre o tema, porém o cita como referência sexual, como os espanhois “Lucia e o Sexo” de Julio Medem e “Torremolinos 73” de Pablo Berger.
Esses filmes revelam que o pornô está em voga. Há no ar, uma certa vontade de derrubar o muro que separa a “Liberdade” de sua irmã “Libertina”. Parece que a ordem do momento é quebrar tabu, o que já descobriu-se, ser um negócio lucrativo.
É do mercado pornográfico que holliwood vêem tirando preciosas lições de marcketing e, dentre elas, uma das mais utilizadas é a de ver celebridades, atrizes e atores com carreiras sólidas, flertarem com filmes que os coloquem em situações explicitas. “Monster´s Ball” aqui traduzido como “A Última Ceia” é o que pode ser chamado de filme sério, o que não o impede de trazer cenas sexuais com a ganhadora do Oscar, Halli Berry, que poriam no chinelo qualquer sessão de “Hot Max”. A receita é antiga e tem outros ingredientes, Sharon Stone, Jacke Nicholson, Demi Moore e outros já tiraram casca do filão, mas há quem tenha ido mais fundo, como o “Garanhão Italiano” Sylvester Stalonne, que iniciou a carreira protagonizando um pornô de mesmo nome.
Umas das regras para utilizar-se do marcketing pornográfico é reafirmá-lo como marginal ou marginalizado, o que não se sustenta em análise mais profunda. Um mercado que produz, só nos estados unidos 11.000 (onze mil) filmes por ano, não pode ser dito marginal. Mas é este efeito subversivo que impulsiona o fetiche do consumidor e quanto mais proibido, melhor. Há quem diga, que aproveitando este forte apelo de propaganda, as atrizes (: p) Pamela Anderson e Paris Hilton, meio que deixaram vazar vídeos caseiros explícitos e com isso deram uma levantada na carreira. Nosso exemplo tupiniquim fica por conta do bombado Alexandre Frota e da musa do Chacrinha Rita Cadillac, seguidas depois por Grethen e família e, claro, mais recente, a ex global Leila Lopez.
O Brasil pode se orgulhar (?) de suas revelações neste setor com direito a prêmio de melhor atriz para Mônica Mattos lá na terra do tio Sam. Mais recente, o diretor Steven Soderbergh escolheu a jovem atriz pornô Sasha Grey (foto) para protagonizar seu próximo filme, "The Girlfriend Experience".
O cinema pornográfico também é o grande utilizador do digital, o que barateia suas produções proporcionando um retorno mais rápido. Em algumas produções ainda existe uma certa preocupação com o roteiro como as do diretor italiano Mario Sallieri, já em outras, como os famosos Butmans, o roteiro funciona como em um “reallity Show” onde a finalidade é o sexo pelo sexo fazendo um tipo de cinema direto. Apesar da elaboração de certas produções (algumas até bem caras), os produtores de cinema adulto não se iludem quanto aos seus objetivos: vender e lucrar.
A questão é: Uma produção tão imediatista, barata e objetiva, pode ser considerada cinema? E se não o é, por que não?

Por hora finalizamos com Drummond:

“(…)Propõe isso a teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?”


criado por helton.julio    22:51 — Arquivado em: cinema, crônicas

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Am I a spambot? yes definately
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