29.12.08
amizade


O samba nasceu no morro.
No chão de terra batida, na pobreza do povo, no sofrimento do preto.
Certo…mas também errado.
Certo porque nasceu no morro e lá mesmo nasceu.
Mas errado que só poderia lá nascer.
O samba não veio do lugar, veio do povo. Não veio da pobreza, ao contrário, veio da riqueza que já havia no gene do negro. Na riqueza da África.
A pobreza e o sofrimento foram condições circunstanciais e momentâneas (poucos séculos de dor não apagam uma eternidade de realeza).
O negro, primeiro povo do mundo, inventaria o samba em qualquer condição. Seja na senzala, como de certo o fez, seja nos palácios de Xangô (e é certo que também sambam os Orixás).
É que nós pretos temos tambor no sangue, pois tambor é crença.
Claro que tem o papo furado de que samba só floresce na pobreza. Mentira, das mais cabeludas…
O samba floresce onde tem África, e, África nunca foi pobreza. Nem cultural nem material.
Foi enganada, explorada e maltratada é verdade.
Seu primeiro povo passou (e passa) por maus bocados…é verdade.
Mas a verdade é que isto é momento no infinito passar dos tempos.
Então não será o samba, nem qualquer outra cultura que temos, aprisionado em nossa condição, mas, morador de nossa alma, de nosso ser.
E o nosso “ser” nunca foi ser pobre ou cativo, ao contrário, sempre fomos prósperos.
É do Egito que vêm as vacas gordas; é da África que vem a mãe de Salomão…
O sofrimento que passamos não revela quem somos. Soma-se ao que já éramos.
E damos sinal de quem somos com nosso ser e nossa música.

No Brasil temos vissungos, nos EUA temos blues. Os dois nasceram iguaizinhos: Na hora do trabalho forçado, um cantador chama e o coro vem. Um pergunta e todos respondem.
É a base do partido alto, do jazz e de qualquer música que nosso povo cante.
Cantamos no trabalho porque trabalho nunca nos pôs medo.
Sambamos com as correntes (miudinho, miudinho) porque corrente não prende a alma.
Até o choro virou chorinho e é feliz.
Nossa cultura é fortaleza e não se acaba no tempo. Transforma-se. Se adapta em qualquer situação.
Nós, primeiro povo do mundo, sambamos no cativeiro para avisar o feitor que não somos dali.
Sorrimos no sofrimento para mostrar que somos grandes. Nossa cultura é rica e não se prende à nossa condição. Mora na alma.
De novo seremos reis e continuaremos tocando jazz..
Novamente prósperos e continuaremos sambando nos palácios.
Seremos o que sempre fomos:
Os primeiros.

À espreita.
Pisando a neve branca,
Furtivo por entre os pinheiros.
Aquela angústia
Já respira sedenta atrás da nuca.
Entre os risos da cozinha,
Na decoração do shopping,
No reflexo da bola natalina,
No espetáculo do banco,
Está o lobo.
Saliva umedece o algodão
Que imita a neve.
Ela não vem.
Ele não volta.
E nos obrigam a dar as mãos,
Nos olhos de meus filhos
Está meu lobo,
E eu
Sou o lobo de meus pais.
(abraça a vó)
Entre pratos e talheres
Sujos de peru e panetone
Na cachoeira distraída da pia
(soluça sozinha)
Ante o ataque do lobo.

Helton Fesan